Ciência

TOC, síndrome de Tourette e autismo: novo estudo identifica 36 genes associados a essas condições

Estudo publicado na Nature Neuroscience identifica 36 genes associados ao TOC e transtornos de tiques e encontra sobreposição com genes ligados ao autismo.

torete

Pesquisa internacional publicada na revista Nature Neuroscience amplia o conhecimento sobre a relação genética entre o transtorno obsessivo-compulsivo, os transtornos de tiques e outras condições do neurodesenvolvimento.

A ciência tem avançado cada vez mais na compreensão dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento de condições como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a síndrome de Tourette e o transtorno do espectro autista (TEA).

Um novo estudo internacional, publicado em setembro de 2026 na revista científica Nature Neuroscience, identificou 36 genes associados ao risco de transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos crônicos de tiques.

A descoberta chama atenção porque parte desses genes também apresenta relação com outras condições do neurodesenvolvimento, incluindo o autismo.

Mas é importante entender exatamente o que essa pesquisa descobriu — e, principalmente, o que ela não significa.

O que o estudo descobriu?

A pesquisa analisou dados genéticos de quase 4 mil pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos de tiques ou as duas condições.

Por meio do sequenciamento do exoma, os pesquisadores conseguiram investigar alterações genéticas relacionadas a essas condições e identificaram 36 genes considerados de alta confiança.

Esse resultado amplia consideravelmente o conhecimento científico disponível até então.

Anteriormente, apenas um número muito menor de genes apresentava evidências consideradas suficientemente sólidas de associação com essas condições.

A identificação de novos genes pode ajudar os pesquisadores a compreender melhor os mecanismos biológicos envolvidos no desenvolvimento do TOC e dos transtornos de tiques.

TOC e síndrome de Tourette podem compartilhar fatores genéticos

Um dos resultados mais relevantes da pesquisa foi a grande sobreposição genética observada entre o TOC e os transtornos crônicos de tiques.

Dos 36 genes identificados, 30 apresentaram associação tanto com casos de TOC quanto com transtornos de tiques.

Esse resultado ajuda a explicar por que essas condições podem aparecer juntas em uma mesma pessoa.

Na prática clínica, já existe uma associação conhecida entre sintomas obsessivo-compulsivos e tiques. A nova pesquisa acrescenta uma importante evidência sobre possíveis mecanismos biológicos compartilhados.

Isso não significa que TOC e síndrome de Tourette sejam a mesma condição.

Significa que determinados fatores genéticos e circuitos cerebrais podem participar do desenvolvimento de ambas.

E qual é a relação com o autismo?

É justamente nesse ponto que a pesquisa desperta interesse para quem trabalha com neurodesenvolvimento.

Os pesquisadores compararam os genes encontrados com conjuntos de genes anteriormente associados a outras condições, incluindo o transtorno do espectro autista.

Os resultados indicaram uma sobreposição genética significativa entre os genes relacionados ao TOC e aos transtornos de tiques e genes associados ao autismo e a outras condições do neurodesenvolvimento.

Isso sugere que diferentes condições podem compartilhar alguns mecanismos biológicos.

Entretanto, existe uma diferença fundamental:

compartilhar fatores genéticos não significa que as condições sejam iguais.

O autismo possui uma arquitetura genética complexa, envolvendo muitos genes e diferentes combinações de fatores.

Portanto, não é correto afirmar que a pesquisa encontrou "36 genes do autismo".

O estudo identificou genes associados principalmente ao TOC e aos transtornos crônicos de tiques, encontrando posteriormente sobreposição com genes relacionados a outras condições.

Os genes também estão relacionados ao funcionamento cerebral

Os pesquisadores não analisaram apenas os genes.

Eles também investigaram onde esses genes apresentam atividade no cérebro e como essa atividade se relaciona com diferentes períodos do desenvolvimento.

Os resultados apontaram para regiões e circuitos cerebrais envolvidos em processos importantes, incluindo aqueles relacionados ao controle de movimentos, formação de hábitos e regulação do comportamento.

Alguns desses mecanismos também aparecem em pesquisas relacionadas ao autismo e outras condições do neurodesenvolvimento.

Essa descoberta reforça uma compreensão cada vez mais importante na ciência:

diferentes condições podem apresentar características distintas, mas compartilhar determinados mecanismos biológicos.

Isso significa que a genética determina o comportamento?

Não.

Essa é uma das principais questões que precisam ser compreendidas quando falamos sobre genética e neurodesenvolvimento.

A identificação de genes associados a uma condição não significa que esses genes determinem que uma pessoa terá determinado diagnóstico ou comportamento.

A genética pode contribuir para o risco e para a forma como determinadas características se desenvolvem, mas o desenvolvimento humano é resultado de uma interação complexa entre diferentes fatores.

Por isso, não existe uma explicação única para condições como autismo, TOC ou síndrome de Tourette.

Por que essa descoberta é importante?

A identificação desses genes pode contribuir para novas pesquisas sobre os mecanismos envolvidos nessas condições.

No futuro, esse conhecimento poderá ajudar os pesquisadores a:

  • compreender melhor os mecanismos biológicos do TOC;
  • estudar a relação entre TOC e transtornos de tiques;
  • investigar mecanismos compartilhados entre diferentes condições do neurodesenvolvimento;
  • identificar possíveis novos alvos para pesquisas terapêuticas;
  • compreender melhor como determinadas alterações genéticas se relacionam com o desenvolvimento cerebral.

É importante destacar que a pesquisa não representa a descoberta de um novo tratamento.

Os resultados são principalmente importantes para ampliar o conhecimento científico e abrir novos caminhos para investigações futuras.

O que isso significa para quem trabalha com neurodesenvolvimento?

Para profissionais que atuam com crianças, adolescentes e adultos no campo do neurodesenvolvimento, pesquisas como essa reforçam a importância de uma abordagem baseada em evidências.

Um comportamento isolado não deve ser interpretado automaticamente como sinal de uma determinada condição.

Movimentos repetitivos, dificuldades de flexibilidade, comportamentos compulsivos, tiques, dificuldades de comunicação ou alterações na interação social podem ter diferentes significados dependendo do contexto e da história de cada pessoa.

Por isso, é fundamental considerar:

história do desenvolvimento, avaliação profissional, contexto, funcionalidade e características individuais.

No trabalho do Atendente Terapêutico, essa compreensão também é importante.

O AT não tem como função realizar diagnóstico.

Seu trabalho envolve observar, registrar informações relevantes, aplicar estratégias planejadas pela equipe responsável, acompanhar respostas e contribuir para o desenvolvimento dos objetivos estabelecidos no planejamento terapêutico.

E tudo isso deve acontecer dentro dos limites de sua atuação e sob a supervisão profissional adequada.

Ciência antes do achismo

Novas descobertas científicas ajudam a explicar melhor aquilo que observamos na prática.

Mas elas também mostram como o desenvolvimento humano é complexo.

Encontrar genes associados a determinadas condições não significa encontrar uma causa única.

Da mesma forma, descobrir mecanismos compartilhados entre autismo, TOC e transtornos de tiques não significa que essas condições sejam iguais ou que uma necessariamente provoque a outra.

A ciência avança justamente quando conseguimos substituir explicações simplistas por uma compreensão mais ampla e baseada em evidências.

Para quem atua no neurodesenvolvimento, acompanhar esse avanço é fundamental.

Quanto mais conhecimento, melhor a capacidade de observar, compreender e intervir com responsabilidade.

Perguntas frequentes

O estudo encontrou 36 genes relacionados ao autismo?

Não exatamente. O estudo identificou 36 genes associados ao TOC e aos transtornos crônicos de tiques. Alguns desses genes apresentaram sobreposição com genes previamente relacionados ao autismo.

TOC e autismo são a mesma condição?

Não. São condições diferentes, embora possam compartilhar alguns fatores genéticos, características e mecanismos relacionados ao funcionamento cerebral.

Quem tem autismo pode ter TOC ou tiques?

Sim. Diferentes condições podem coexistir na mesma pessoa. Porém, a presença de determinados comportamentos não é suficiente para estabelecer um diagnóstico.

A pesquisa descobriu a causa do autismo?

Não. O estudo não descobriu uma causa única para o autismo. A genética do TEA é complexa e envolve muitos fatores.

Os 36 genes podem ser usados para diagnosticar uma pessoa?

Não. A descoberta não estabelece um teste diagnóstico baseado nesses 36 genes.

Essa pesquisa já criou um novo tratamento?

Não. Os resultados ampliam o conhecimento científico e podem contribuir para futuras pesquisas sobre tratamentos e mecanismos envolvidos nessas condições.


Para quem trabalha com neurodesenvolvimento, conhecimento faz parte da prática

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Perguntas frequentes

O estudo encontrou 36 genes relacionados ao autismo?

Não exatamente. O estudo identificou 36 genes associados ao TOC e aos transtornos crônicos de tiques. Alguns desses genes apresentaram sobreposição com genes previamente relacionados ao autismo.

TOC e autismo são a mesma condição?

Não. São condições diferentes, embora possam compartilhar alguns fatores genéticos, características e mecanismos relacionados ao funcionamento cerebral.

Quem tem autismo pode ter TOC ou tiques?

Sim. Diferentes condições podem coexistir na mesma pessoa. Porém, a presença de determinados comportamentos não é suficiente para estabelecer um diagnóstico.

A pesquisa descobriu a causa do autismo?

Não. O estudo não descobriu uma causa única para o autismo. A genética do TEA é complexa e envolve muitos fatores.

Os 36 genes podem ser usados para diagnosticar uma pessoa?

Não. A descoberta não estabelece um teste diagnóstico baseado nesses 36 genes.

Essa pesquisa já criou um novo tratamento?

Não. Os resultados ampliam o conhecimento científico e podem contribuir para futuras pesquisas sobre tratamentos e mecanismos envolvidos nessas condições.